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Canudos é pra quem tem a coragem de se permitir

"Canudos não é o céu, mas Deus mora aqui Uma utopia sertaneja que foi varrida do mapa três vezes, mas que se recusa a morrer"

Fazer parte do Projeto Canudos é, sobretudo, um ato de coragem.

Em um primeiro momento, pode-se pensar que seja pelo fato de aceitarmos abdicar de nossos confortos. Ir para um lugar desconhecido, dormindo na casa de pessoas que não conhecemos, possivelmente tomando banho frio e convivendo com algumas privações.

No decorrer do processo, no entanto, ganhamos consciência de que essa coragem diz respeito a algo muito maior.

Fazer parte do Projeto Canudos é aceitar que nunca mais voltaremos ao mesmo tamanho depois de uma experiência de tamanha magnitude. É aceitar a possibilidade de que, ao voltar para as nossas cidades de origem, talvez nossas roupas não nos caibam mais.

É um exercício de abdicar do individual, dos nossos próprios horários, das nossas próprias vontades, para nos tornarmos um coletivo. E perceber que em conjunto, nos potencializamos e vamos muitíssimo além.

Viver Canudos é permitir que a realidade nua a crua, de um Brasil extremamente desigual, nos coloque em cheque. Arrebentando nossos preconceitos, nossos achismos, nossa ignorância. É se permitir ser invadido por muita ternura, por muita alegria, por muita tristeza, por muito aprendizado.

Nesses quinze dias tive o privilégio de mergulhar no que há de mais profundo e essencial dentro de mim. Canudos me trouxe uma parte que precisava ser redescoberta e potencializada aqui dentro, revelando também outra parte que sinto já poder deixar ir embora, já que não me serve mais.

Aqui fica evidente que o profissional que se apropriar de todo conhecimento e de toda técnica possível e imaginável, nunca chegará perto de ser um bom profissional se não exercitar ouvidos pacientes e humanidade plena no trato com o outro. Aprender que saúde diz respeito a algo infinitamente maior do que somente aquilo circunscrito pela área da medicina.

Ratificou a teimosia do povo sertanejo, que resiste, que avança, que renasce em tanta vida severina, mesmo com o Estado lhe negando assistência e condições básicas para sua sobrevivência.

Viver Canudos é, por vezes, se deparar com situações que nos colocam a questionar quanta privação é necessária para que um ser humano se acostume a conviver com moscas que voam em volta de seus rostos e seus corpos, atordoando-lhes a mente.

É entender no concreto que a omissão do Estado mata: pela negação de saúde de qualidade, de acesso a saúde bucal, de acesso a educação básica, remédios, terra produtiva, informação.

Viver Canudos é aprender a aceitar, não apenas a querer dar. É aprender a respeitar quem não está pronto para aceitar. É saber se sentir potente e impotente com a mesma resignação.

É aceitar a reconstrução da casa interna e compreender que, quando vamos em direção ao outro, no intuito de ajudá-lo e “salvá-lo”, buscamos na verdade a nossa própria cura e salvação. Pois levamos muito, esclarecemos muito, mudamos muito, crescemos muito.

É ouvir de uma criança de oito anos de idade que a sua ida "dói dentro do peito dela". E se permitir chorar de saudade, pela primeira vez na vida.

Foi essencialmente viver um sonho dentro de um sonho.

Canudos é pra quem tem a coragem de se permitir.

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