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Dois cafés e a conta com Victor Bigoli

Biomédico e professor da Universidade Metodista de São Paulo fala de suas missões humanitárias pelo interior do país


Victor Bigoli saiu do sertão do Piauí no dia 9 passado, após nove dias numa missão humanitária. No dia seguinte, já estava em Roraima, conversando com venezuelanos que fogem de seu país. De lá, foi conhecer a Guiana Inglesa, até voltar na quarta para São Paulo. É assim há 15 anos. O biomédico divide-se entre a estrada e as aulas na Universidade Metodista de São Paulo, onde também é coordenador e assessor da reitoria nos projetos de Extensão. Nascido há 35 anos em São Caetano do Sul, ele já percorreu todos os estados do país com suas ações de saúde e cidadania. Muitas vezes leva universitários, que vão como voluntários. É o caso do Projeto Canudos <projetocanudos.com.br>, que ele dirige. Acontece desde 2010 no povoado de Canudos Velho, na Bahia, e em outros cantos do país. Victor é ainda um dos professores coordenadores do Projeto Rondon. Já participou dele por onze vezes, como em 2011, em Porto Esperidião (MT). “A cada dois dias visitávamos uma comunidade indígena. Construímos bibliotecas e ‘escovódromos’ (pias grandes com dezenas de torneiras e um grande espelho para incentivar as crianças a escovar os dentes)”, diz ele, que registra as expedições em seu Instagram (@profvhb).


REVISTA O GLOBO: Como são essas ações humanitárias?

VICTOR BIGOLI: Levamos profissionais e estudantes de diversas especialidades a regiões distantes, onde a população vive em condições precárias, com pouco acesso a serviços públicos. Os projetos são desenhados em dois planos: ações emergenciais e educacionais. Em uma comunidade que sofre com a malária é importante tratar os doentes, mas também prevenir novos casos. Nas ações emergenciais, são feitos exames, realizados atendimentos médicos, odontológicos e fisioterapêuticos, distribuídos medicamentos. Afinal, são comunidades vulneráveis, que precisam de uma pronta intervenção. No lado educacional, há palestras, cursos e orientações para lideranças, agentes de saúde e moradores, sobre temas como saneamento, nutrição, planejamento familiar, purificação da água. Fomentamos a consciência crítica, discutimos melhorias para a comunidade, estimulamos o cooperativismo, o associativismo, o empreendedorismo. Tudo feito junto com a população.


Fale da missão no Piauí no início deste mês e da ida a Roraima.

A Missão Médica VV (de Volunteer Vacantions) foi um sucesso. Teve coordenação médica de Karina Oliani e coordenação logística minha e da empresária Mariana Serra. Foram cerca de mil atendimentos, inclusive cirurgias de baixa complexidade, em cidades do interior e em quilombos. O sertão registra a pior seca em cinco anos, e havia muitos casos de desnutrição e desidratação. Um menino de 6 anos estava com peso de um bebê de 1. Sem a missão, teria morrido. Uma senhora sofreu há pouco um AVC brando. Sem nossos estímulos básicos, seu fim seria uma cadeira de rodas. Quando pôde andar sem ajuda, desmanchou-se em lágrimas. Em Roraima, fui fazer um documentário fotográfico com venezuelanos que procuram abrigo, comida e dignidade no Brasil. Esse êxodo em breve se tornará um problema de saúde pública.


O Projeto Canudos leva universitários ao interior. Por quê?

Os ensinamentos em sala de aula devem ultrapassar os muros da universidade. Só assim teremos profissionais mais engajados, corajosos e humanos. Muitos desconhecem a realidade da maioria da população. É nosso dever como professor e cidadão dar a eles essa experiência de vida. Ao voltar, dizem: “me tornei mais humano”, “nunca me senti tão viva como lá”, “reavaliei valores”, “nenhum estágio poderá me ensinar o que aprendi”, “hoje meus olhos são mais generosos”, “me trouxe um olhar profissional diferente”, “minha vida começou a ter outras vidas”.


Como é sua rotina nas expedições pelo país?

Vivi com índios, sertanejos, ribeirinhos, quilombolas. Já dormi em oca, tapera, casa de taipa. Já fiquei dias sem banho, atravessei mangues, lagos e pântanos. Ouvi rugido de onça durante toda noite. No Piauí só comia bode e, em Roraima, só peixe. Vejo famílias inteiras sofrendo com o descaso e a falta de saneamento básico e de moradia digna. Atendemos pessoas com os mais diversos problemas. Levar um pouco de conhecimento, dar esperança, proporcionar mais qualidade de vida e bem estar a eles é o que mais me motiva a continuar. Nos últimos quinze anos, vi fome, sede, angústia, desespero, mas vi esperança, fé e força de um povo brasileiro aguerrido. Se me arrisquei, valeu a pena.

Victor Hugo Bigoli - O Globo

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