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Janela

29.06.2013

Nos preparativos para a viagem do Projeto Canudos já não tinha mais aquele entusiasmo de outrora, quando sentia frio na barriga em vésperas de excursões de infância. Quando sonhava meses com a dada hora da partida.

Apesar de as recentes expectativas serem ainda maiores e mais desafiadoras, me sinto de certo modo mais madura frente às minhas viagens que agora – independente de qual – são sempre projetos de vida ao invés de apenas e relesmente uma viagem com entusiasmo ingênuo e vazio.

Meu entusiasmo, hoje, contudo, é um entusiasmo calmo e instruído, premeditado e maduro. É um entusiasmo pleno de vivência e certeiro, pois qualquer que seja o local ou objetivo, será pleno de vivências. Porque minha mente agora está trabalhada para captar experiência nos mínimos detalhes. Em qualquer lugar. E é assim que tem que ser.

Então, o entusiasmo é de continuidade, porque deve ser o mesmo que nos invade dia a dia: a vontade de captar o âmago plenamente. A vontade de raspar o fundo do pote e lambê-lo até não se ver mais resquício algum. É absorver absoluta e maximamente a riqueza que temos todos os dias ao viver.

Foi esse entusiasmo constante, calmo e contido que dei continuidade mesmo quando se fala do grande Projeto Canudos. Confesso que foi até menos de que quando fui viajar para a terra de mamãe em janeiro deste ano. Quando esse sentimento, agora maduro (se é que posso me arriscar a considerá-lo já assim, de imediato), me era ainda tão fresco e noviço. Ainda tão esbaforido e encantado com a nova e admirável forma de viver os dias. Porque isso é um estilo de vida. Acho que posso chamar assim. Dou-me a permissão de assim denominar, já que o estilo é completamente meu e nem sei se é possível compreendê-lo assim tão banal e facilmente num papel pautado.

Enfim, nem me dei conta e já estava a sentar no banco do ônibus disposta a encarar as 40 horas de viagem que viriam pela frente. Quando digo disposta, me refiro a disposição de fato plena e completa – o coração estava calmo, sem angústia alguma. Sem questionamento algum. Sem senão algum. Tudo estava sob medida.

Olhava a janela, como de costume – e um costume que não transborda nunca. E assisti a paisagem correr com pressa para lugar nenhum. Assisti atenta ao nada escancarado em minha frente e esparramado em minhas ideias decantadas.

Então me atinei das tantas outras vezes que fiz o mesmo, mas quando não era a mesma. Reconheci a janela apressada das excursões de colégio. Reconheci os montes longínquos do caminho à Aparecida do Norte. O sol no asfalto corrediço da estrada à Rio Preto. As fazendas silenciosas do trajeto à Itapeva, quando iniciei minhas extensões universitárias. Até mesmo as árvores dançantes do último carnaval rumo a Riviera. Veio-me até as paisagens das janelas de avião para comparar, mas descartei. Era muita paisagem, muito sentimento embaralhado para comparar de uma só vez.

Sempre a sentar-me na janela, sempre a admirar-me com a paisagem que corre, corre, mas continua lá infinitamente. Mas dessa vez, eu é que não era mais a de sempre. Algo em mim já não era mais eu, ou, na verdade, o eu se transformara em novo eu.

Só sei que as longas 40 horas nem foram sofridas ou pesadas. A cabeça estava tão embaraçada que as horas eram detalhes apenas.

Chegando aqui na terra do vento, na curiosa Canudos Velho, fomos recebidos aos fogos de artifício. Descendo do ônibus, ainda sonolenta de um cochilo longo e aturdido, as nossas mães nos esperavam ansiosas e esperançosas. Elas estampavam na face a compaixão e humildade – representadas num sorriso tímido e num olhar pequeno, mas profundo. Descarregamos as bagagens e materiais numerosos. Eram 5 horas da manhã nublada de terça-feira (25). Nos reunimos no refeitório na casa da Tonton, onde depois descobrimos quem eram nossas famílias. Algumas mães se mostravam mais emocionadas e carinhosas, outras estavam tímidas e contidas, um pouco sem jeito. Já outras se soltaram e em poucos minutos apresentavam-se espevitadas e, como se diz aqui na terrinha, arretadas. Mas todas, certamente, muito abertas a não só nos acolher como nos fomentar com o carinho necessário.

Fomos dormir. Resolvi tomar um banho, já que não o havia feito durante o trajeto de vinda. A Tonton, filha de minha querida mãe Miúda, me chamou para tomar banho quente na casa dela. Eu aceitei… afinal, se podia escolher entre banho quente e frio, por que não optar pelo quente? Peguei meus pertences e fui. Ela havia esquentado a água e, quando fui tomar meu devido banho, me deparei com um balde de água e uma cumbica para me lavar. Fiquei alguns segundos estática tentando esclarecer o processo local de tomar banho. Não pensei duas vezes e liguei a água fria do cano e tomei meu banho frio da manhã. Não ilustrei um banho bem dado com cumbica em minha mente – não que eu não fosse me submeter a isso caso fosse a saída – mas, ainda que frio, preferia água corrente. Ou, para ser mais realista, filete de água. Fiquei triste pelo trabalho de aquecer a água ser desperdiçado. Mas, o banho foi gostoso. Bom mesmo. Voltei para minha casa renovada. Uma casa humilde e calma. Bonita pela simplicidade. Semelhante à casa da prma Gilda que estive em janeiro deste ano.

Mas, apesar das discrepantes diferenças de estilo de vida, me senti em casa assim que pus meu pé nessa terra batida com pedras. A afinidade que tenho aqui é incrível, estou à vontade como se estivesse na minha terra. Talvez porque algo dos meus antepassados tenha reflorado inevitavelmente. E talvez por isso que sinto esse projeto tão normal. E não por isso (ou inclusive por isso) deixe de ser tão rico e tão bonito.

Quero viver essa experiência ao máximo. Quero acrescentar meu eu. Quero embaralhar mais ainda minhas certezas. Quero estar aberta, aliás, escancarada, para a vida. Nossa equipe tem sido prestativa, colaborativa, empenhada, entusiasmada e aberta. É bonito de se ver e certamente vamos aprender muito. O que vamos deixar aqui não é nada perto do que vamos levar daqui conosco.

Algumas peculiaridades daqui são curiosas e é bom estar inserido por alguns dias num cotidiano distinto e se permitir total desvencilhamento da vida cotidiana, como simplesmente esquecer por completo da existência da internet num mundo tão tecnológico e globalizado. Esse tipo de libertação abre as portas para a plenitude do pensar e para a valorização do que está ao nosso redor e muitas vezes é cegamente óbvio. E é tão essencial.

E nessa vida sertaneja baiana, ouço forró tecnobrega, como prioritariamente carboidratos (arroz, feijão, cuzcuz, farinha), anseio pela festa de São João e rio à toa com simplicidade, acolhendo os diferentes sem pudor.

De noite caminhamos até o açude, agora seco. Não se via muito na escuridão e não fazia efeito registrar em fotografia. Mas me impressionei ao avistar o chão rachado e, mais a frente, um barco atracado na escuridão da noite sob apenas o luar tão peroláceo. E só de tentar imaginar quanta história aquele solo de guerra havia guardado, enlouqueci.

Essa terra, aparentemente tão simples, tem muito segredo para revelar. Tenho orgulho de ser brasileira e, apesar de paulista, me considero baiana. Meu coração diz que sou baiana, eu só aceitei a condição.

 

 

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